A violência contra a mulher como entretenimento?


Precisamos falar sobre violência contra a mulher, e uma das melhores formas de se fazer isso é através da cultura. Hoje gostaria de analisar um gênero específico de entretenimento, tanto audiovisual quanto literário: o suspense. É um dos gêneros de maior audiência na atualidade, em diversos formatos, figurando também entre os livros mais vendidos do Brasil.

Como leitora assídua desse gênero, sempre olhei para essas histórias como uma reprodução crua e nítida do pior que o ser humano pode fazer com outros seres humanos. Isso foi uma das coisas que sempre me fascinaram — e não me surpreenderam, evidentemente, porque há muito tempo deixei de ter uma visão embaçada e romantizada da humanidade.

No geral, autores masculinos dessas histórias tendem a colocar as mulheres no papel de vítimas de diversos tipos de violência externa, causadas principalmente por homens próximos, fazendo um retrato bastante claro do que acontece na sociedade. Homens são, estatisticamente, a causa da violência social e, principalmente, daquela que vitimiza mulheres e meninas.

Outro olhar que podemos lançar é sobre como as mulheres são apresentadas na cultura. Que papel nos cabe na arte? Sabemos que os papéis de gênero, estabelecidos desde o nascimento para meninos e meninas, são culturais, reforçados de geração em geração, diferenciando completamente a criação de ambos os sexos, baseados somente em sua biologia e cunhando para cada um um futuro já traçado. Dificilmente conseguimos desviar do que é pré-determinado a nós, principalmente às mulheres.

O feminismo não é uma ideologia de mulheres contra os homens, mas o machismo é uma ideologia de homens contra as mulheres. O ódio contra as mulheres, a chamada misoginia, está em toda parte, até mesmo na linguagem. Palavras femininas, ou que fazem referência a características femininas, são usadas como depreciação, principalmente quando dirigidas a homens, enquanto palavras masculinas são empoderadoras e reforçam uma ideia positiva do indivíduo.

Já a misandria, o ódio contra os homens, é uma retórica criada por homens que não querem perder o privilégio que sua masculinidade tóxica conserva há séculos. Porém, é muitas vezes utilizada por mulheres para mostrar que os homens, assim como algumas mulheres, infelizmente, reforçam uma estrutura de dominação e violência sobre as mulheres, que legitima historicamente o lugar deles em instâncias diversas de poder — um sistema conhecido como patriarcado.

Enquanto a criação de meninas garante o silenciamento e a submissão de mulheres que serão facilmente cooptadas pela violência institucional masculina, a “brotheragem”, ou camaradagem dos homens, garante que eles continuem praticando violências das mais diversas contra as mulheres, com o apoio e a conivência de outros homens, do sistema de justiça, do sistema político e do sistema econômico, dominados predominantemente por homens.

O mundo é deles, e a nós cabe somente o trabalho do cuidado para que esses homens cheguem aonde querem chegar, ou ao lugar que lhes é garantido pelo sistema que dominam. Por isso a importância de colocar uma mulher contra a outra, isolando-as e tornando-as vulneráveis ao domínio masculino. A solidão feminina é uma das consequências mais cruéis do patriarcado, depois do feminicídio e da violência sexual. É uma das armas mais eficazes e mais antigas da História: dividir para conquistar.

A luta das mulheres, o chamado feminismo, busca uma igualdade de direitos entre os sexos que ainda hoje não temos. Muitas das conquistas das mulheres ao longo da História foram conseguidas com muito suor, sangue e angústia de mulheres e meninas, que nunca lutaram somente por si mesmas, como fazem os homens, mas também por seus filhos e por outras mulheres. Mas, acima de tudo, é um coletivo de solidariedade feminina, também chamado de sororidade, exatamente para atuar contra a solidão que nos divide e desprotege.

Uma mudança radical na sociedade contra essa que é a verdadeira ideologia de gênero — a já estabelecida historicamente, que coloca o homem no poder e a mulher sob suas rédeas — é a educação. E, como comecei no início do artigo, a cultura é uma das ferramentas. Há muito pouco tempo, cerca de dois séculos, mulheres começaram a escrever, publicar e serem lidas, e mesmo hoje ainda é difícil vê-las figurando entre as mais lidas.

E como não podia deixar de ser, existem mulheres escrevendo suspense, com outro olhar. O papel da violência ainda é central nessas histórias, porém, um novo enfoque voltado para dentro, para os traumas que essas violências, perdas e até mesmo a opressão de gênero provocam socialmente, pode ser visto com muito mais ênfase e profundidade. Esse olhar desnuda muito mais as consequências desse tipo de violência institucionalizada do que a ação em si, como outros autores costumam focar.

Outra coisa que podemos notar são as justificativas, muitas vezes individuais e não sistêmicas, que essas obras oferecem, e soluções ainda mais individualistas e, com frequência, tão violentas quanto aquelas que as vítimas sofrem. Não que eu seja a favor de combatermos tiros com flores, mas uma solução que não passe pela raiz do problema talvez melhore os números — e nem isso anda acontecendo. Em 2025, o Brasil bateu recorde de feminicídios.

A pergunta que fica é: estamos naturalizando a violência contra a mulher com esse tipo de gênero? Ou estamos usando-o como forma de denúncia? Podemos aprofundar o debate e trazer soluções mais realistas em vez de catárticas? Pesquisas mostram que as meninas estão infelizes. Que tipo de sociedade estamos oferecendo a elas? Quais as expectativas de que viverão em um lugar melhor do que suas mães? Que tipo de futuro terão diante de uma violência tão enraizada e que não para de crescer?

Precisamos de ações concretas, de curto e longo prazo, que ofereçam esperança às próximas gerações, que hoje estão vivendo crises simultâneas e adoecendo antes de chegar à fase adulta. O que será do futuro do nosso país se não oferecermos alternativas ao que está dado? O que podemos fazer? Eu não tenho as respostas, mas acredito que juntos podemos chegar a uma solução. Assim como fomos capazes de criar a sociedade em que vivemos, podemos muito bem criar outra muito diferente e melhor para todos — inclusive para metade da população, que está adoecendo e morrendo de forma assustadora.

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